
TRAGO AQUI REFLEXÕES QUE VENHO FAZENDO SOBRE REDUÇÃO DE DANOS
Redução de Danos e Saúde Indígena
Para pensar nisso preciso contar uma historinha.
Quando iniciamos a discussão da Redução de Danos (RD) em Porto Alegre, percebemos que o nosso “conhecimento” baseava-se muito em experiências com uso de heroína, que é muito diferente do nosso uso de cocaína brasileiro. Onde mais aprendi sobre RD brasileira foi na rua e numa capacitação que fizemos na PUC onde cada “palestra” era feita com o ponto de vista de um técnico e de um UDI. Foi ali, assistindo os UDIs falarem do seu uso que nós reorganizamos o tal “kit de RD” que tinha que adequar as seringas às necessidades dos usuários e que na verdade era só um “dispositivo” para conversa com eles porque a troca de seringas acontecia deixando-se caixas de seringa e caixas coletoras com os usuários, pois 2 seringas no Kit só serve para usuário de heroína. O uso de cocaína exigia uma quantidade de material muito maior.
Por que trago isso agora? Porque novamente estamos lidando com uma experiência de uma “tribo” e tentando adequá-la a outra “tribo”.
Em uma reunião que participei, na organização de uma capacitação sobre RD para técnicos da FUNASA, uma técnica de saúde indígena citou a fala de um índio que já teve problemas com álcool e que agora estaria em abstinência e esta fala ficou ecoando em mim como se eu precisasse entender mais o que foi dito. Ele teria falado que “se um índio não pode pescar, caçar... o que faria?” (algo assim...)
Neste final de semana eu fiz um curso com um índio guarani de São Paulo onde ele falou muito sobre a sua cultura e religiosidade (que pra ele não são duas coisas). Foi aí que percebi porque aquela fala me pareceu que tinha mais coisa por trás. Para nós, não índios, não poder pescar quer dizer não ter lazer, estar sem tempo pra descansar, etc. Nós vivemos em apartamentos, usamos ônibus, caminhamos em calçadas e isso não nos atrapalha muito. Precisamos de vez em quando ir a um parque, mas ainda assim reclamamos das formigas. Para um índio não pescar, não caçar é estar longe de si mesmo de uma forma muito mais intensa do que a gente imagina ou entende. Ele se constitui enquanto ser a partir dessas práticas.
Estou achando que quando colocamos como tema de uma parte da nossa capacitação: “Uso de drogas como sintoma social” faz muito sentido para nós. Será que para índios é isso? Será que o melhor não seria partir dessa pergunta: Por que um índio usa drogas e por que ultimamente isto está virando um problema dentro das aldeias? Está me incomodando um pouco esta sensação de estar falando de um “bolo”, dizendo que não vamos dar uma “receita de bolo”, mas partindo de “ingredientes” que talvez não sejam os usados por eles. Não sei se me faço entender...
O guarani de quem falei antes, citou a expressão “maku” (não sei se é assim para os kaigang também) que seria uma pessoa que por ser mais sensível e às vezes mais forte, se presta para ser o “ovelha negra”, aquele que destoa, aquele que dá problemas para a família, para o clã. Eles dão trabalho, incomodam, preocupam, mas em algumas cerimônias se honram estas pessoas e se pedem o alivio do seu sofrimento, pois eles ajudam a família sendo o depositário da “doença familiar”. Não sei se estou dizendo alguma bobagem, se for isso me perdoem e me corrijam, mas foi como entendi. E achei parecido com a situação dos usuários de drogas em muitos lugares, muitas famílias, muitos grupos e, por que não, nos nossos serviços de saúde.
Será que o uso de drogas como problema dentro das comunidades indígenas, apesar de estar muito ligada ao seu contato com a cultura não índia, não deveria ser analisada do ponto de vista da “sua” cultura e não da nossa? Sei que a capacitação é para técnicos não índios que trabalham na FUNASA, eles são a população alvo da capacitação, mas o nosso objetivo mesmo é entender e saber como atuar na questão da dependência química de índios, eles são nosso objetivo final. Será que não seria o momento dos técnicos não índios sentarem numa roda e ouvir as lideranças indígenas, os mais velhos, os que conhecem melhor os problemas da aldeia e assim, na roda, tentar ver como poderíamos ajudar? Em que? De que forma? Temos conhecimentos sobre o efeito das drogas que estão sendo usadas, mas é apenas a parte química e sabemos e como isso se inscreve na nossa cultura. Como isso se inscreve na cultura indígena e as formas de trabalhar com estas pessoas, provavelmente eles possam saber melhor do que nós.
Confesso que estou com medo de ter falado bobagens demais. Tenho um amigo que diz que todas as idéias são válidas, nem que seja como adubo. Espero que estas minhas sirvam pelo menos pra isso.
Nenhum comentário:
Postar um comentário