
“a minha alucinação é suportar o dia a dia
o meu delírio é a experiência com coisas reais”
Belchior
Para a reflexão sobre este tema gostaria de usar uma fundamentação teórica que talvez pareça estranha, mas que eu acredito ilustrar o que de mais importante possa ser dito sobre o assunto.
Resumo aqui a história de um livro infanto-juvenil chamado O Mágico Desinventor. Esta história tem um mágico, é claro, com cartola, coelho branco, varinha mágica e que possui um poder ilimitado. Ele se preocupa muito com as crianças, e, por ser uma pessoa muito boa, quer a felicidade delas. Assim, põe-se a observar a vida de crianças que brincam perto da sua casa e fica imaginando quais são os maiores impecílios para a felicidade delas. A partir da sua observação chega a algumas conclusões e com o poder que possui passa a “desinventar” todas as coisas que percebeu como obstáculos para a felicidade das crianças. Sendo assim, no primeiro dia desinventa a televisão, no segundo os automóveis, no terceiro todos os tipos de armamentos e no quarto dia desinventa o dinheiro. O Mágico ficou muito feliz pois imaginou que conseguiria assim resolver todos os problemas que impediam a felicidade das crianças.
É ficção infantil, mas dá para imaginar o caos formado a partir das desinvenções. A partir disso o Mágico resolveu consultar as crianças para ver o que tinha dado errado e na simplicidade que só as crianças conseguem ter, elas responderam que não adiantava desinventar as coisas porque não eram as “coisas” que atrapalhavam a felicidade delas e sim o uso que se fazia delas. Vale a pena ler o livro para conhecer o desenrolar desta história, mas aqui nos interessa a metáfora que ele nos propõe.
Ao falar de tabagismo estamos tratando de um grave problema de saúde pública e também estamos falando de um uso muito antigo na nossa sociedade. Poderíamos nos perguntar se o uso de tabaco sempre foi um problema tão grave como agora. Isto cabe para qualquer outro tipo de droga que possamos pensar, mas vamos nos deter no tabaco que é nosso assunto neste momento.
Todos sabemos os danos à saúde que o uso do tabaco pode trazer. Vamos imaginar, como o mágico da história, que o tabaco é um empecilho para a saúde e para a qualidade de vida da população. Será que dá para imaginar que temos o poder do nosso mágico e desinventar o tabaco? E com isto vamos salvar a população desta chaga que mata e causa sofrimento para mais de 1 milhão de pessoas no mundo?
Em toda a história do homem existiram drogas e apesar de diferenças históricas, o seu uso sempre existiu. Provavelmente nunca foi tão danoso como o é na sociedade contemporânea. Será que foram só as drogas e o seu efeito que mudaram ou a sociedade, seus valores e conceitos também estão diferentes?
Imaginemos um agricultor de uma cidade do interior que fumava um cigarro feito de palha e com fumo de rama. Para fumar um cigarro ele precisava um bom tempo para afinar a palha com canivete, picar o fumo bem pequeno, montar o cigarro e depois fumá-lo. A industrialização do cigarro mudou isto. Com o tempo que o agricultor levava para fazer um cigarro, o homem moderno pode fumar 2 ou 3 cigarros. E não é só a quantidade, mas muda também a qualidade dos produtos consumidos no cigarro de palha e no cigarro industrializado. Estamos falando do tabaco, mas são mais de 4.000 substâncias existentes no cigarro que causam problemas de saúde ao fumante.
No ano de 2003 tive a oportunidade de participar de um grupo de estudos sobre o uso de crack que foi uma escola muito importante para todos os que dele fizeram parte. O estudo se fazia em conjunto entre técnicos de saúde e usuários de crack. Eles nos contavam como usavam e isto nos ajudava a pensar conjuntamente nos danos que estavam associados a este uso. Percebemos, por exemplo, que além do crack em si, ou seja, do efeito da cocaína que contém a pedra, o uso da pedra numa lata de refrigerante achada no chão ou na lata de lixo deixava o usuário exposto a vários outros danos: a sujeira da lata, o calor no metal que superaquecia a boca, os produtos químicos que eram liberados da lata com o calor, a cinza de cigarro que era usada como carvão para manter a pedra acesa e que entrava sem nenhuma filtragem nos pulmões. Tudo isto pode ser observado pelos próprios usuários que começaram a inventar formas de usar crack de forma menos danosa, por exemplo não usando lata mas um copinho plástico, uma garrafa plástica com água no fundo, o que não trazia tantos problemas quanto a lata.
Podemos estar imaginando “mas eles continuaram usando crack”. Na maioria dos casos sim, mas com certeza por um bom tempo eles estiveram dentro de um serviço de saúde pensando sobre sua saúde e com isto fizeram vínculos com técnicos que eles vão poder contatar com mais facilidade se eles realmente desejarem parar.
A convivência com os usuários de drogas, as discussões que eu já tive oportunidade de ter com eles sobre o seu uso, o acompanhamento que eu já pude fazer do seu processo de relacionamento com o seu uso me fizeram descobrir algumas coisas que hoje para mim são muito importantes.
1. Não existem receitas, não existem definições que possam servir para todos os casos. Cada usuário é diferente e cada um estabelece relações ímpares com a droga.
2. Se a droga ocupa um lugar privilegiado na vida desta pessoa, ele só vai deixá-la por um motivo muito forte para ela. Não basta que o motivo seja forte para os dados epidemiológicos, para o técnico de saúde ou para a sua família.
3. O fato deste sujeito não conseguir ou não querer parar de usar esta droga não quer dizer que ele não se interessa pela sua vida ou pela sua saúde ou que ele se negue a discutir este assunto com alguém que esteja disposto a ouvi-lo. Mas para isto é necessário que a gente esteja disposto a ouvi-lo como ser único que tem uma vivência ímpar e que portanto tem uma saída igualmente impar para os seus problemas.
4. Qualquer abertura para uma reflexão sobre o uso é uma vitória. O uso compulsivo é sempre mais danoso e mais intenso. Se houver uma possibilidade de pensar: aqui não, agora não, por que mais um, desta forma não, já se estabeleceu um pensamento entre o desejo/necessidade e o uso e isto é um passo muito importante.
Se levarmos em conta esta aprendizagem, podemos pensar como a redução de danos pode lidar com a questão do tabagismo. Em primeiro lugar não existe “o fumante” e sim os fumantes que estabelecem relações diferentes com o cigarro e que fazem uso de maneiras muito diversas apesar de à primeira vista parecer que tudo é igual. Isto é fundamental se quisermos ajudá-lo pois teremos que estar dispostos a acompanhá-lo na sua reflexão, nas suas tentativas e no que estão dispostos a mudar em relação ao seu uso. Isso do ponto de vista individual porque é assim que é possível alguma mudança real na relação de cada fumante com o seu uso.
Se pensarmos enquanto sociedade, enquanto saída coletiva com certeza as formas de regulação de locais especiais para uso tem uma eficácia importante. Apesar de muitas vezes ser usada como uma forma de constrangimento, a regulação de locais e momentos possíveis para o uso do tabaco faz com que o fumante diminua o seu consumo e principalmente aprenda que pode retardar o próximo cigarro, desde que o motivo seja importante, por exemplo durante a aula. Isto também contribui para que ele experimente o fato de que ele é capaz de se concentrar e pensar sem estar fumando. Este distanciamento causado por uma imposição social acaba sendo uma experiência individual e uma aprendizagem que ele está fazendo sobre o seu corpo e sobre o seu consumo.
Isto pode parecer muito pouco comparado com o tamanho do problema, mas aprendi a reconhecer o alcance e o limite da nossa intervenção. Não sei quanto a vocês, mas a minha experiência tem me ensinado que mágicos desinventores não existem, que um mundo sem drogas habitado por seres humanos é uma ilusão e eu prefiro viver a realidade das coisas.






