terça-feira, 27 de julho de 2010

CICLOS




Em 2007 consegui realizar um importante sonho pra mim: construímos e fomos morar em uma casa em Viamão. Desde o início da construção tenho aprendido muito sobre ciclos.
Primeiro foram os ciclos humanos :
1.burocracia, papéis, plantas, autorizações, taxas, taxas, taxas... sem colocar
um tijolo na obra;
2. “limpeza” do terreno: que dor! Nosso terreno tinha uma mata nativa muito
linda e precisou ser “limpo” para a construção acontecer. Apesar de eu e meu marido termos claro desde o início que queríamos manter o mato onde fosse possível, várias árvores precisaram ser derrubadas. Todas de pequeno porte e com autorização do biólogo da Prefeitura, mas várias vezes eu me via pedindo paciência para os guardiães do lugar, que tínhamos boas intenções, mas afinal, éramos humanos e não sabíamos viver sem destruir as coisas.
3. Convivência com a obra: esta foi terrível porque para os trabalhadores que construíram a casa, mato quer dizer “grande lata de lixo”. Nos finais de semana íamos pra lá com sacos de lixo e fazíamos o que apelidamos de “patrulha ecológica” que consistia em passear pela obra e pelo mato, catando tudo o que achávamos de lixo. Eram vários sacos de carteiras de cigarro, sacos plásticos, pedaços de ferramentas e muitos cacos de telha e tijolo espalhados por todos os lados.
4. Enfim fomos morar lá! O terreno todo parecia estar num sala de recuperação após uma intervenção cirúrgica complicada. Foi assim que tentamos tratá-lo: como um convalescente. Ele retribuiu e foi sarando aos poucos e aos poucos nos acolhendo generosamente.
5. Viver na casa – esta está sendo outra aprendizagem sobre ciclos, agora da natureza. Primeiro foram as flores. Parece que todos os fiozinhos de capim resolveram florir! E foi rápido e se foram também rápido. Esta foi a primeira aprendizagem: as coisas vêm e vão rapidamente e quando se vão, pode esperar porque algo novo está chegando. Às vezes nem tão agradável assim.
Foi assim que chegaram os bichos-cabeludos e invadiram tudo. Entravam pelas janelas, subiam as escadas. Podiam estar em qualquer lugar desde nas cadeiras como dentro dos calçados. Um dia sem mais nem menos eles sumiram. Apenas um eu acompanhei. Ele se prendeu na beirinha da janela e todos os dias enquanto eu tomava café da manhã, acompanhava a sua metamorfose. Ele que era preto foi ficando um casulo branquinho e cresceu e ficou quieto por vários dias, até que eu vi que ele estava se rompendo e uma borboleta laranja surgia. Fui para o trabalho e quando voltei o casulo estava vazio. Um dia levantei pela manhã e na janela da cozinha podia se ver umas centenas de borboletas brancas pequeninhas que voejavam dando a impressão de estar nevando. Poucos dias e no meio da tarde, no sol quente, apareceram borboletas azuis enormes com um brilho de neon nas azas. São lindas e passam a tarde se borbeleteando pelo mato.
Nós já estamos aprendendo a comentar: o que apareceu hoje? Pode ser um bando de besouros que buscam as lâmpadas de noite, os marimbondos que procuram lugar para construir suas casinhas de barro, os filhotes de sabiá que estão aprendendo a voar e que se assustam com a gente... Sempre tem novidades.
Ontem à noite veio mais uma e esta me fez pensar em escrever pra vocês sobre isso. Estávamos sentados assistindo a nossa televisão de 3m com tela profunda (que é a janela da área que dá para o mato) quando começamos a perceber algumas luzinhas. Apagamos as luzes e assistimos um lindo espetáculo de balé, dos vaga-lumes! Lembram a propaganda do Zaffari? Pois era bem assim. Quem inventou aquele comercial deve ter vivido numa casa e observado o céu perto do Natal.
Neste momento de mudança de ano, mais um ciclo humano, desejo pra vocês um despertar para a observação da natureza. Eu precisei vir para o meio do mato para descobrir algumas coisas, mas estou certa de que onde quer que se more, a natureza grita e pede a nossa atenção. Afinem os ouvidos, os olhos e, no meio do cotidiano, indo ou vindo de carro ou de ônibus, fique atenta ela deve estar dizendo algo. São estas lições de mãe que a gente pode ter deixado de escutar e que estão nos fazendo falta para lidar com nossos próprios ciclos. Com as chegadas, com as despedidas. Com a época da flor e com a da semente. Os silêncios dos casulos e o canto do pássaro... ai!... que acaba de cantar sem a menor culpa depois de ter pousado e cagado todo o espelho do meu carro...
enfim... há que se aprender a paciência também...
Dezembro 2007

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