Me criei ouvindo histórias.Aprendi a contá-las e percebi que escrever histórias é uma boa maneira de transmitir idéias, dúvidas e perplexidades...
1.
CENAS DE NATAL
Anoitecia. Chegava a tão esperada, tão desejada, tão temida “Noite Feliz”.
Na cozinha a mãe preparava alguma coisa para a ceia. O pai assistia televisão como em todas as noites.
Lili sentia que tinha que fazer alguma coisa. Abriu as janelas e uma aragem fresquinha penetrou na sala.
- Tu vais encher a casa de mosquito, Lili – disse o pai imóvel na sua poltrona.
Na cozinha estava tudo em ordem, a mesa colocada impecavelmente.
- Vai chamar o teu pai, Lili!
Foi aos pulos:
- Papai! A janta está pronta. Olha só que bonita a mesa que eu arrumei!
Um ‘ é ‘ sonolento deixou em Lili a forte impressão de que este Natal seria igual aos outros.
A ceia transcorreu tranqüila, diálogos monótonos: “ passa aquele prato”, “quer mais?” “ o seu Jair saiu de férias e fica mais serviço para mim”, “um horror a diferença do preço do bar do seu Quico para o supermercado”.
Depois da janta Lili correu para o toca-disco e colocou o disco de músicas natalinas. Era preciso impregnar a sala de alegria que vinha do blém-blóm dos sinos que tocavam no disco.
Ficou olhando para as luzes do pinheiro em frente ao edifício. Lá dentro a mãe lavava a louça e o pai se entregava a um sono digestivo na poltrona em frente à televisão.
Agora Lili olhava para as luzes e via que brilhavam mais, e mais, e mais, e confundiam suas cores até duas lágrimas grossas rolarem teimosamente.
Na rua um grande movimento de carros, pessoas que saíam, que chegavam Lá em baixo uma porta se abria e a família do Dr. Andrade se empilhava no carro para ir à casa da avó.
No apartamento de cima tudo era silêncio: Miguel, solteirão que morava sozinho, já se embebedara de tarde e provavelmente dormia atirado na cama. Dissera para o seu Quico, do bar, que não resistia passar o natal sozinho.
As janelas da frente estavam fechadas. Dona Cândida e |seu Luiz já saíram de viagem. Iriam para o Paraná, na casa da filha casada. Já deviam estar no ônibus, perto de seu destino.
- Fecha a janela, Lili, quer que os mosquitos comam a gente durante a noite?
O pai entrava para o quarto. Estava no fim a sua “Noite Feliz”. Fechou a janela, desligou o toca-disco e foi para a sua cama sonhar com luzes, colas coloridas e melodias que embalassem o seu pranto.
Lá na rua a noite mal começava para muitos. Vozes, risadas denunciavam que a noite seria feliz para alguns: para Miguel que dormia, para Dr. Andrade e sua família que iriam trocar presentes até a meia-noite, para seu Luiz e dona Cândida que iriam conhecer o netinho, sim, a esta hora já deviam ter chegado...
Realmente nesta hora, o |ônibus entrava na rodoviária de Curitiba. Os dois ansiosos procuravam um rosto conhecido.Muitas pessoas se amontoavam esperando os passageiros.
- Mamãe!
Lá estava Lucinha, a mesma menina, o mesmo olhar do dia da formatura, do dia do casamento. Amadurecera, é verdade, mas os olhos ainda eram os mesmos de menina feliz:
- Fizeram boa viagem? Vamos o Cláudio e o Bruno nos esperam lá em casa.
Seu Luiz pegou a mala que o motorista lhe alcançava.
- Feliz Natal, moço, Feliz Natal!!
O rapaz retribuiu sem muita emoção. Sabia que não seria. Que passaria a meia-noite num bar da rodoviária, esperando a hora de voltar. Longe da mulher, das crianças como em tantas datas importantes. Doze horas o separavam da família, mas amanhã estaria lê e tentaria compensar o tempo perdido.
Fechou o ônibus e foi para a lancheria. Na porta se amontoava um mendigo suje e fedorento perdido no meio de suas tralhas que guardava como a um tesouro. Desviou do homem e de seu “acampamento” e entrou na lancheria.
O mendigo nem ligou para o seu olhar de repugnância. Já estava acostumado, nem ligava. Mas hoje todo o mundo parecia ficar mais penalizado quando olhava para ele. Todos estavam mais arrumados, mais perfumados, cheios de pacotes e de pressa.
O grande relógio da rodoviária marcava 23:45. Os corredores começaram a ficar desertos. Onde tinha ido todo mundo? O mendigo entrou num bar aberto, juntou uns trocados e pediu “uma lisa”. O rádio ligado tocava uma canção natalina. O homem entronou o copo numa careta e começou a dançar com a melodia do rádio.
De repente um grande foguetório interrompeu o seu balé. Os carros buzinavam, as moças da lancheria se abraçaram, a voz do locutor falava melosamente uma infindável felicitação.
O mendigo retornou contrariado ao seu acampamento e adormeceu irritado com tanta buzina, tanto foguete e tantos brados de “feliz Natal”.
2.
NOITES DE VERÃO
Difícil dizer o que era pior. A cama estava quente. O ventilador fazia um barulho de motor de avião. O vento que ele trazia era quente como saído de um forno. E os mosquitos. Ah, sim! Os mosquitos!
O consolo só podia vir do quarto ao lado, mas não vinha. Levantou e foi ao banheiro. Lá também o calor estava grande. Molhou o rosto. Esperou. Apurou o ouvido... sim... ele tinha acordado.
Saiu do banheiro como se nem esperasse encontrar alguém, mas ele estava lá, sentado na cadeira da sala, no escuro, com um ar de quem também não conseguia dormir.
- Oi, também não conseguia dormir? Sussurrou no ouvido do irmão.
- É... disse ele sonolento.
Ficaram ali os dois por uns instantes cansados de tanto calor. Logo depois se olharam com aquele olhar travesso de quem sabe o que o outro está pensando e sorriram.
Ela foi ao seu quarto e abriu a gaveta cuidando para não fazer barulho. Ele foi até a porta do quarto dos pais e conferiu: os dois dormiam pesado. Fechou a porta sem fazer barulho.
Encontraram-se na sala e ela mostrou as mãos fechadas escondendo o seu conteúdo. Ele riu.
- Com luz ou só com a lua?
- Só com a lua... respondeu ela, como se acender a luz fosse algo inapropriado.
Sentaram no chão perto da janela:
- Eu primeiro – disse ela.
- Mas foi tu que começou ontem!
- E daí... fui eu que fiz...
- Ta bem, mas não vou te dar arrego.
- Como se eu precisasse... Já esqueceu que na contagem da semana ta 4 a 2 pra mim?
Ele fez que não ouviu. Fazia sempre assim quando ouvir não era vantajoso. Acomodou-se nas almofadas que pegou no sofá e ficou observando.
Ela, com a certeza de que tinha começado bem, porque tinha conseguido fazê-lo calar logo no começo, fez o primeiro lançamento.
Cinco Marias no chão e a agilidade vencia a escuridão.
- A de um eu passei.
Ele nem ligou.
- A de dois eu passei.
Um bocejo foi a resposta.
-Ai... ficou longe... mas... deu! A de três eu passei.
Mais um espreguiçamento como se não tivesse a menor importância.
- A de ... quatro... foi! E agora a ponte... Oba! Essa vai ser fácil. Qual é a última?
Ele analisou bem, mudou de posição para examinar melhor o grau de dificuldade...
- Essa aqui.
- Ai, tu ta cruel hoje... ta bom. Foi uma, duas, três e... tudo!
Ele começava a se cansar, não do jogo, não que estivesse com sono. Cansava da firula que a irmã contava.
- Cala a boca e joga...
- Agora os pontos ... e lá vai...
Ele sabia que no escuro ficava difícil, mas que a irmã tinha uma prática de quem passa o dia todo treinando e que era capaz de conseguir fazer o máximo de pontos mesmo de olhos fechados. Então...
TAP!
- Ai! Não valeu... eu me assustei com o tapa que tu deu na perna...
- Azar...
- Tu fez de propósito!
- Capaz! Eu é que não ia deixar o mosquito me mordendo só pra tu não errar a jogada...
- Tu fez de propósito!!! E caiu em cima do irmão aos socos.
Ela se defendia fazendo cócegas e em pouco tempo os dois riam e rolavam pela sala que já nem parecia tão quente. A lua entrava e parecia trazer uma aragem fresquinha, sinal de que a manhã logo chegaria e que os mosquitos iriam embora e que eles poderiam enfim dormir em paz.
Ela acordou com aquela sensação boa de infância na pele. Está quente é verdade, mas nada se comparava com o calor daquele tempo...
Foi até o banheiro e lavou o rosto para refrescar. Agora olhava o rosto no espelho, os cabelos grisalhos, as rugas já conhecidas...
Na sala olhava a lua e a madrugada que logo traria o sol. Onde estaria o irmão numa hora destas? Será que se joga Cinco Marias no céu?
3.
RUA FRIA
Ao dobrar a esquina o vento parecia mais forte ainda. Mesmo assim, encurvou o corpo e continuou. Dali vinha a música e ele queria ouvir mais de perto. Sentou na beira da calçada e ficou olhando a dupla de cegos que tocavam.
As canções falavam de amores perdidos, de dores, de saudades... As pessoas passavam. Umas paravam, escutavam um pouco e depois se iam. Outras nem percebiam e apenas se incomodavam com o aglomerado de gente no meio da rua. Algumas moedas iam caindo na caixinha na frente da dupla.
Encolheu-se mais debaixo da pouca roupa e fechou os olhos para aproveitar melhor a música. As vozes da dupla de cegos carregavam muita melancolia. Os acordes mais agudos pareciam doer fundo no coração. Dava uma certa vontade de chorar por alguma coisa que ele não sabia bem ao certo o que seria.
A música parara e isto lhe fez abrir os olhos e perceber que já começava a escurecer. A dupla recolhia a sua caixinha, os instrumentos e um auxiliando o outro seguiram rua a fora.
Ele se deixou ficar ali encolhido, sentindo o frio invadir e gelar o corpo todo. Esta sensação ele conhecia bem. Começava pelos pés, gelava, anestesiava até as pernas e continuava subindo pelo corpo todo. Várias vezes brincava assim com o frio. O corpo ia ficando leve e colorido como uma pandorga. Ele se deixava voar ao sabor do vento e lá ficava a dar cambalhotas no céu muito azul com seu esqueleto de taquara e sua pele de seda multicor, quentinho e feliz. Passavam-se as horas, até que era puxado para baixo pelo fio que o prendia à terra e voltava a ser ele mesmo, cinzento e gelado.
Com o início da noite as pessoas passavam mais apressadas e abraçadas aos seus agasalhos. Olhavam para ele com um misto de dó, medo e indiferença. “Por que deixam estas crianças na rua?” “Isto é culpa das famílias. Se não podem sustentar não deviam ter tantos filhos” “Onde anda o governo que não faz nada por esta gente?” “Se estão na rua é porque não prestam, não querem ficar num lugar decente”.
Tinha dias que estas frases revoltavam. Em outros dias, como hoje, pareciam não ter nenhuma relação com ele. Levantou e foi-se acomodar sob uma marquise como se tivesse uma forma de estar mais protegido do frio. Percebeu que não ia ter como não passar frio e decidiu brincar de pandorga como sempre fazia em noites assim.
O movimento já tinha diminuído e agora poucas pessoas passavam. As lojas já estavam fechadas. Os poucos passantes tinham pressa de ir para algum lugar. Ele recordava as melodias tristonhas que ouvira de tarde e ia se entregando à brincadeira de tornar-se pandorga. As pernas e braços já eram taquaras amarradas, o corpo começava a colorir-se e lá se ia ele. O sol estava quentinho e a sensação era de conforto, de prazer. Sentia-se tão protegido pelo calor do sol, tão feliz com o movimento do vento. Hoje tudo parecia tão perfeito, até aquela incômoda sensação do fio que o prendia à terra parecia ter desaparecido. Ele era plenamente cor e movimento.
A manhã mal começava e percebia-se isso pelos primeiros movimentos do dia. Ônibus sonolentos saiam das garagens. A rua começava a ser povoada: trabalhadores que saiam, desempregados inauguravam filas, bêbados cambaleavam em busca de seus repousos.
Uma mulher gorda amontoa-se sobre um caixote ao lado da pilha de jornais e inicia sua cantilena oferecendo sua mercadoria aos passantes. Tantas notícias importantes, tantos fatos grandiosos, tantas oportunidades. As pessoas param, pagam, pegam seu exemplar e saem olhando as manchetes. Poucos perceberão uma nota pequena ao pé da página policial:
“Esta madrugada, foi encontrado na rua por um policial,
o corpo de um menino aparentando 10 anos que morreu
de frio na noite passada. Até o momento o menino não
foi identificado”.
4.
A PONTE
Era aquele momento da noite em que quem tem casa para onde ir, já foi e quem está na rua é porque tem algum motivo bem definido.
Por trás da coluna ele avaliava aquela figura no meio da ponte. Parecia um corpo de mulher. Precisava chegar mais perto para ver melhor. Mas chegar de uma forma que não causasse medo. A estas horas da noite é sempre bom vir como quem não quer nada.
Cheirou a manga novamente para pensar melhor. Dava uma tonturinha, mas depois as idéias se clareavam. Era mesmo uma mulher. O que poderia fazer uma mulher sozinha àquelas horas no meio da ponte? Ela parecia apenas olhar o rio. Tinha uma bolsa que assim de longe parecia boa o suficiente para ele correr o risco. Afinal que risco? O máximo que ia acontecer era ela sair correndo. Se isso acontecesse, tentava em outro lugar, ele é que não ia se cansar atrás dela.
Podia ser como o coroa da semana passada. O velho tinha perdido o horário do ônibus na rodoviária e como tinha que fazer um tempo, foi dar um passeio e parou na ponte. Azar o dele. Ou como o rapaz do outro dia, que largou a mochila na beira da ponte para olhar o rio. Ele se chegou e o mané começou a divagar sobre a poluição e os empresários que não se preocupam com isso e mais um monte de coisa. Ele deu trela para o sabichão que se empolgou e nem viu que ele saiu de mansinho com a mochila. Comeu muito bife com batata frita depois desta.
A bolsa era boa mesmo. “Aquela manta vai ser maneira nas noites mais frias”. Cheirou novamente a manga para criar coragem e chegou.
- Oi tia.
Falou manso e com naturalidade para não causar medo nela.
- Olá, meu filho – falou ela com certa ternura.
Tinha um ar bondoso e não parecia surpresa em vê-lo. Parecia mesmo que pressentia a sua chegada.
- Como é seu nome?
- Charles, dona. A senhora não acha que já tá meio tarde? – perguntou se chegando mais perto, ao lado da murada da ponte.
- Nunca é tarde para morrer – disse ela olhando longamente para o rio.
“Olha só a tia é daquelas suicidas. Bom, fica mais fácil. Se vai mesmo se atirar, me dá a manta, a bolsa e... que saco, tinha que usar sapato de salto? Bom, posso fazer uma presença pra alguma mina. Ou trocar por umas pratas na loja do Wladi”.
- Que é isso tia? Hoje está frio, mas amanhã vai ser um dia lindo, a senhora vai ver.
Disse isso com o seu ar mais inocente possível. Ela passou uma mão cheirosa pelo cabelo sujo do menino, fazendo tilintar uma porção de pulseiras douradas.
“Legal, essas pulseiras a Nina vai adorar!”.
- Tá ficando frio agora, né? – disse ele puxando assunto.
- Você está com pouco agasalho.
Ela falou olhando para os seus pés em chinelos de dedo velhos e a calça curta.
“Esse papo está ficando bom. Ela assim com pena de mim, pode ser que eu nem precise forçar a barra e acabe ganhando hoje alguma coisa e amanhã mais alguma coisa”.
- É, mas ficaria melhor esta noite se eu ganhasse umas pratas para comer alguma coisa. Sabe isso é que dá mais frio: a fome...
Olhou de canto de olho para ver se a mulher estava penalizada. Ela olhava para ele com a mesma ternura. Ele aproveitou para conferir o tamanho da jaqueta.
“A tia é mais alta, mas até que vai ficar maneiro, aquelas mangas compridas”.
- Mas além do rango, se descolar um casaco, vai ficar melhor...
Ficou nervoso. “Ih, acho que passei da conta. Ela vai amarelar desse jeito.” Cheirou novamente a manga para voltar a se acalmar.
- Senta aqui do meu lado, Charles.
“Não é que ela é doida mesmo?” Sentou ao lado da mulher na murada da ponte.
- Você gosta de cheirar, não é?
“Ih, vai vir sermão...” Ficou meio sem saber o que dizer.
- Cheira de novo que eu quero ver.
- Qual é tia?
- Sério, cheira de novo.
“Cara, tem cada doida por aí. Primeiro aquela de suicídio. Agora quer que eu cheire quando todo mundo diz que eu não devo fazer isso!”
Ela continuava olhando para ele tão docemente que ele ficou meio desconcertado.
“Bom, agora depois dessa, ou ela abre alguma coisa ou eu tomo a dianteira. Primeiro a bolsa, a jaqueta, as pulseiras e o sapato. Acho que só isso chega”.
Cheirou novamente a manga bem demoradamente. Foi dando uma tonturinha. Um vento na cara, parecia que ele ia rolando, rolando, rolando... Até cair nas águas geladas do rio.
Ela respirou fundo o ar gelado da noite e ajeitou a manta em volta do pescoço. Olhou novamente para o rio onde o movimento e o barulho já haviam cessado. Conferiu o céu.
- Talvez amanhã faça mesmo um dia lindo, Charles. Mas sabe de uma coisa menino: para você, certamente o dia não ia ser tão lindo assim. Adeus.
Ajeitou a bolsa e rumou para casa.
5.
DEPOIS DAS 10
Cidade grande, muitos carros, muita gente. Às seis da tarde era comum este caos. Hoje, porém, havia também os alagamentos e várias sinaleiras que não estavam funcionando. É que durante a tarde tinha desabado um temporal dos maiores que a cidade já sofrera. Todos concordavam que precisava chover depois de algumas semanas de intenso calor, mas ninguém imaginava que seria assim tão forte. As pessoas nunca parecem preparadas para coisas tão intensas, apesar de internamente desejá-las.
Lucia era mais uma no meio desta multidão que tentava atravessar a rua sem molhar os pés, mais uma que saía do trabalho neste horário e que buscava chegar em casa. A diferença é que não tinha muita pressa. Caminhava lentamente pela calçada inundada, buscando pisar em algum ponto mais seco.
Ao dobrar a esquina, avistou as luzes acesas e o portão de grade aberto. Tinha chegado a tempo. Venceu lentamente os degraus e sentiu como um aconchego, aquele conhecido cheiro de velas queimando. Dirigiu-se ao altar da direita, que não era o mais procurado e onde não havia tanta vela. Um certo ar de penumbra cercava a imagem do santo com sua túnica marrom, os pássaros no ombro e no braço e aquele ar angelical no sorriso gelado de gesso. Não era o santo que ela vinha visitar, era quem estava a seus pés. E lá estava ele, quase um mascote com seu pelo acinzentado olhando para algum lugar que ela nunca conseguia definir ao certo. Parecia que olhava para o santo, mas tinha momentos em que ela tinha a impressão de que ele olhava para outro lugar, para alguém que estivesse ao lado deles.
Ficou ali por algum tempo a observar o animal que desde pequena a atraía e que muitas vezes povoava seus sonhos. Não eram pesadelos, eram sonhos, resquícios do dia, das conversas no escritório, e nos lugares mais estranhos lá ele aparecia, ora deitado no tapete da sala do chefe, outras vezes esgueirando-se pelo corredor do banheiro.
Quando saiu a correria já não era tão grande e ela pode caminhar lentamente até sua casa. Era bom morar assim perto do trabalho e não precisar de condução para ir embora. Gostava também daquela sensação de sair do barulho do centro da cidade, entrar no corredor comprido e antigo do seu edifício, abrir a porta do apartamento e ouvir o silêncio que vinha lá de dentro.
Era um apartamento grande que herdara da avó materna. Família elegante e tradicional da cidade, de quem ela não herdara sequer o sobrenome, pois seu pai, novo rico, como gostava de dizer a avó, não queria saber de nada de aristocracias na sua casa ou com seus filhos. A gente vale o que é capaz de produzir. Esta era a lei do seu pai. E ela não produzia muito mesmo. Nunca quis estudar. Nunca teve muita ambição. Nunca quis casar, ter filhos. Gostava da sua vida pacata, da sua solidão. Quando herdou o apartamento da avó, sentiu-se realizada. Mantinha o quarto da avó intacto e de vez em quando fazia visitas para a anciã.
Hoje depois daquela chuvarada deu vontade de penetrar no pequeno mundo da avó. Acendeu o abajur e uma luz amarelada invadiu o aposento que mantinha aquele cheiro de alfazema e dava a certeza da presença da alma da avó. Fitou com ternura o quadro da anunciação. Uma reprodução de Rogier van der Weiden que a avó trouxera de uma viagem a Paris. Quantas vezes ela pegara a neta predileta no colo e conversara sobre o quadro. O que mais te chama atenção, filha? O vasinho com um pendão de lírio no chão do quarto, respondera ela. É um sinal de pureza, de castidade filha. E o que mais você nota? Ela correra os olhos pelo quadro: um quarto todo elegante, com colcha e almofadas vermelhas onde Maria recebia a visita do Anjo Gabriel. Tudo parecia harmônico, o olhar cândido de Maria, as vestes douradas do Anjo. Seus olhos pararam nas asas do Anjo. Vovó estas asas não se parecem com as que eu imagino para um anjo. Não minha filha? Como seriam? Asas angelicais seriam asas suaves, com peninhas macias e não assim pontudas, pretas. Você vê mais adiante mesmo filha. E a mão de Maria, assim nesta posição. Parece que está dizendo para o Anjo “pera aí, vamos conversar melhor sobre esta história, não é bem assim...” A velha ria da interpretação da menina e entrava na sua história. Pois é, filha, está vendo que Maria tem um livro nas mãos? Ela não devia ser tão fácil assim de convencer de alguma coisa. Ainda mais com um anjo de asas pretas e pontudas.
Lucia olhava com carinho o quadro que tinha sido sua Anunciação de que as coisas podem não ser bem aquilo que todo mundo diz e que a gente precisa olhar mais adiante.
Sentou na cadeira de balanço e quase adormeceu. Teve a sensação de ser observada por alguém e abriu os olhos, na porta entreaberta do quarto, viu uma sombra de um rabo peludo e acinzentado que saía silenciosamente. Imediatamente olhou para a imagem do santo que a avó trouxera da Itália. Imagem talhada em madeira, que trazia ainda o perfume da árvore que precisou ser morta para virar arte. Lá estava o santo com sua túnica, seu sorriso ingênuo, suas pombas e... Deu um salto para perto do oratório pendurado ao lado da cama. O lobo não estava lá. Devia ter caído no chão. Acendeu a luz mais forte para iluminar melhor e procurou pelo chão, sobre as almofadas. Em vão, não estava lá.
Deitou-se na cama da avó dividida entre dois pensamentos:
- O lobo de madeira deveria ter caído em algum lugar.
- Mas ela não tinha encontrado.
- Deve ter sido a empregada que ao limpar o quarto deixou o pedacinho de madeira cair e acabou sugando com o aspirador de pó. Sim isto parecia bem possível.
- Mas e a sensação de ser observada, e o rabo peludo saindo pela porta?
- Era só o que faltava. Ela esteve olhando o lobo da imagem na igreja, dormiu e sonhou como tantas outras vezes. Sim. Era isto.
Ergueu-se, apagou a luz, fechou a porta e foi para o seu quarto. Precisava tomar um banho para tirar o sono e o cansaço pois hoje tinha combinado sair com os colegas do trabalho.
Vestiu-se com cuidado escolhendo os acessórios que valorizassem a sua beleza mas que não dessem um ar de mulher desfrutável. Mamãe se orgulharia de mim.
Já na porta conferiu o batom e lembrou que não tinha colocado o perfume. Voltou ao quarto, abriu a gaveta e buscou o vidro. Parou ao ouvir um ruído na porta. Parecia que estava sendo mais aberta. Foi conferir e realmente o vão que tinha deixado estava maior. Olhou para o corredor escuro e pareceu ter visto alguma coisa esgueirando-se pela escada. Alguma coisa baixa, não uma pessoa. Fechou a porta um tanto confusa. O que é isso, Lucia? Uma mulher de 40 anos, inteligente e com estas fantasias de criança? Voltou ao quarto, colocou o perfume e saiu.
A rua estava movimentada e iluminada, gente ia e vinha para todos os lados. Sempre tinha a impressão de que à noite a rua era outra, as pessoas eram outras. Havia uma certa metamorfose. Seu pai também pensava assim. Costumava dizer que à noite os cordeiros se transformavam em lobos. Por isso tinha aquele outra lei: filha minha não sai de casa depois das 10. Sem querer olhou para o relógio da praça: 22 horas. Sorriu da coincidência. Talvez papai tivesse razão.
Chegou ao bar combinado e encontrou os colegas que a receberam com elogios. Era sempre uma situação estranha. Vários colegas já haviam feito convites para jantar, insinuações, declarações mesmo, mas ela não se interessava por nenhum. Havia mesmo uma desconfiança de que ela preferisse mulheres, mas as colegas mulheres descartavam esta hipótese dizendo que elas saberiam se isso fosse verdade. O fato é que ela se divertia com esta situação de manter um certo mistério em torno da sua imagem. Não era pedante nem antipática, apenas misteriosa.
As conversas giravam em torno de qualquer coisa. As garrafas se sucediam. Estava tudo muito agradável. As pessoas, a música, a tonturinha... Resolveu ir ao banheiro. O bar estava repleto. Desceu as escadas, foi abrindo caminho entre os grupinhos que se juntavam perto do balcão. Agora só faltava passar pela coluna e dobrar à esquerda. Encostado na coluna estava um homem de casaco de couro acinzentado, cabelo e barba grisalhos, óculos um tanto escuros para aquele ambiente.
- Com licença?
- Pois não...
No banheiro, olhou-se no espelho e percebeu que estava um pouco perturbada. Hoje tirei o dia para me sentir feito criança. A imagem da mulher adulta no espelho não combinava com o tremor nas mãos que retocavam o batom. Lúcia, Lúcia, o que é isso mulher? Ajeitou a saia, os cabelos e saiu.
Ele estava lá. Parecia esperando. Olhava fixamente, sem nenhum disfarce, nada casual. E o pior é que ela parecia conhecê-lo. Talvez conhecesse mesmo de outra situação, do trabalho talvez. Não, não se parecia com algum cliente. Tinha um certo ar selvagem, de motoqueiro, de andarilho... Teria que passar por ele e queria parecer natural. E ele parado na frente dela esperando que ela pedisse licença. Resolveu não pedir. Alguma coisa nele era desafiador. Resolveu parar na sua frente sem dizer nada. Ele não se intimidou. Parecia tranqüilo como se estivesse pronto para qualquer situação.
- Você fica muito bem de vermelho. Melhor do que aquele conjuntinho marrom.
Devia ser mesmo do trabalho que ela conhecia o tal homem.
- É meu uniforme. Se dependesse de mim não seria marrom.
- Você prefere vermelho?
- Qualquer outra cor, menos marrom.
Sentiu-se muito sem graça. Não por estar conversando com um estranho sobre sua cor de preferência. Mas porque estava sorrindo e sendo toda simpática e ele continuava impassível, sem demonstrar nenhuma simpatia, sem poder ver seus olhos para sentir o que se passava na sua alma.
- Com licença?
- Pois não...
Horrível. Simplesmente horrível a sua saída. Tentou se sair bem, mas agora se sentia mais criança do que antes. Quase tropeçou na escada. Ficou vermelha. Os colegas comentaram sobre seu rubor. É o ambiente fechado, fico assim. Pronto, voltara a restabelecer o domínio da situação.
Na hora da saída insistiu que iria sozinha pois morava bem perto. Um colega protestou veementemente alegando os perigos da noite. Não tenho medo da noite. Sempre andei sozinha. É que ela está na idade da loba, comentou alguém. Mas um dia é da caça e outro do caçador, insistiu o colega.
Não tanto por estar convencida do risco, muito mais pelo tremor que sentiu com a alusão da loba, é que resolveu aceitar a companhia.
A madrugada estava agradável, clara. Umas poucas nuvens brincavam de esconde-esconde com a lua cheia. Caminhavam devagar comentando coisas banais.
Ao dobrar uma esquina, deram com a figura de um imponente animal. Que é isto um lobo em plena cidade? Ela estava tão paralisada que não conseguia sequer falar. O animal continuava ali fitando seus olhos de maneira muito firme.
- Ele está calmo, deve ser um cachorro daqueles parecidos com lobo. Engraçado, não tem coleira. Mas não se preocupe cachorros só atacam no seu território e ele não parece estar em casa. E se for lobo perdeu-se do seu bando. Vamos!
- Matilha...
- O que?
- Matilha. É assim que se chama o “bando” de lobos.
- Tanto faz. Sozinho ele fica na dele.
Voltaram a andar. O animal sentou-se e ficou no mesmo lugar, mas ao atravessar a rua pode ver que ele a seguia com seus olhos faiscando na rua deserta.
- Pronto. Entregue sã e salva apesar de eu ter enfrentado um lobo por sua causa.
- Não começa Marquinho. Obrigada pela companhia.
- Nem um cafezinho eu ganho?
- Amanhã, no escritório, eu te pago um. Boa noite.
Fechou a porta atrás de si e ficou aguardando até não ouvir mais os passos do colega. Uma certa ansiedade começou a invadi-la. Não resistiu a tentação e abriu uma frestinha da porta. Ele estava lá. Os olhos fixos nos dela.
Seguiu para seu apartamento sem saber ao certo o que pensar. Tirou a roupa, a maquiagem e deitou-se.
O sono veio logo. O cansaço do dia misturado com as várias emoções da noite se encarregaram de adormecê-la. Estava dormindo, mas podia sentir a brisa que entrava da janela, o cheiro dos lençóis e aos poucos aquela mão que passeava por suas pernas, suas costas, alisava seus cabelos e aos poucos o calor do corpo tocando o seu e o roçar da barba na sua nuca e um beijo, quase mordida...
Acordou de um salto. Acendeu a luz. Não havia ninguém ali. Só ela. Deitou novamente. Na cama, um cheiro de mato, de árvores. Olhou o relógio. Quase hora de levantar. Resolveu não dormir mais. Trocou os lençóis e foi tomar banho. A água morna, a esponja e novamente aquela sensação de carícias, de calor. Instintivamente segurou o pescoço, último contato que tivera.
Passou o dia bastante distraída no trabalho. Queria que a noite chegasse. Depois das 10, pensava ela, quando os cordeiros se tornam lobos.
À noite colocou um vestido vermelho e voltou ao bar sozinha. No caminho esperava vê-lo a cada esquina, mas não estava lá.
Já não havia mesas disponíveis. Ficou no balcão, de onde podia ver a porta. Muitos olhares cruzaram com o seu, mas não correspondeu a nenhum. Procurava um par de lentes escuras.
- Só porque falei que ficava bem de vermelho...
A voz vinha de trás dela. Não precisou se virar para saber quem era.
- Por isso usa-se queijo em uma ratoeira. Porque rato gosta.
Só então olhou para ele, sentindo-se vitoriosa.
- Vamos sair daqui, convidou ele.
Pegou a mão que ele estendia e saiu sem nenhuma resistência.
No céu a lua cheia reinava soberana. Seguia a seu lado pela rua sem perguntar aonde iam. Sua mão segurava firme a dela, mas não era rude.
Entraram em um bar esfumaçado que ela não conhecia, mas onde ele cumprimentou várias pessoas. Eram cumprimentos que demonstravam não exatamente simpatia, mas uma certa parceria. Ele indicou uma mesa em um canto, perto da janela. Antes de sentarem ele trocou a cadeira de lugar. Nunca sento de costas para a rua, explicou. Ela não entendeu o motivo, mas tinha desistido de muitas perguntas. Ele pediu a um garçom sonolento uma cerveja e um Malboro. Ela o observava calada. Ele fumava e bebia como se estivesse sozinho, perdido dentro dos seus óculos escuros. Quando apagou o cigarro, virou-se para ela. Engraçado, sentia-se tão observada por ele, sem poder ver os seus olhos. Vamos dançar? Sim, ela queria.
O negro gordo que tocava guitarra lembrava um B.B.King jamaicano, mas a música era mais próxima de uma balada country. Ele envolveu seu corpo com uma delicada firmeza. Gostava de dançar assim. Lançada para longe dele e puxada por seu braço e novamente envolvida. Beberam muito, dançaram muito. Seu parceiro era decidido e imprevisível, tinha algo de selvagem que a contagiava. Só isso explicaria que ela estivesse ali com um total estranho, dançando de forma tão erótica, agarrando-se mesmo a ele no meio da pista de dança. Ele tinha um jeito traiçoeiro e envolvente de acariciar. E ela não tinha a menor intenção de resistir, no fundo ele apenas adivinhava seus desejos. Como quando a puxou para junto do si e sussurrou ao seu ouvido. Eles têm um quarto lá no fundo. Vamos pra lá? Sim, ela queria. Umas palavras trocadas com o rapaz do balcão e a chave estava na sua mão. Vamos.
O quarto tinha apenas uma cama velha e uma cadeira de ferro. Na parede um calendário de um ano indecifrável com uma foto de um lobo uivando para uma lua cheia. Foi tudo o que conseguiu ver, pois quando a porta fechou, o quarto ficou numa penumbra onde só se distinguiam sombras.
Ele deu-lhe um beijo demorado e carinhoso. Depois a atirou sobre a cama e jogou-se por cima. Era difícil acreditar que o homem que a penetrava com uma certa fúria, fosse o mesmo que se aninhava nos seus braços logo após e parecia um bichinho de pelúcia pronto para ser acariciado. Difícil também de crer que fosse ela que tivesse aquelas atitudes de subir sobre ele e desejá-lo com tal selvageria que deixasse marca de unhas nas suas costas e de mordidas no seu peito. Difícil também de saber ao certo se naquele momento em que fitou seus olhos no escuro, o brilho que viu fosse real ou apenas efeito do prazer que sentia. Formavam um conjunto de braços, pernas, peles, suores, fluídos onde o único objetivo era prazer.
Batidas fortes na porta fizeram com que saísse daquela sensação de entrega absoluta. Moça, temos que fechar, vamos lá! Abriu os olhos sem entender o que estava acontecendo. A voz lá fora insistia. Vamos lá, moça! Buscou suas roupas espalhadas pelo quarto.Vestiu-se e olhou-se no espelho rachado que estava fixo na parede. Na parte maior do espelho, estava um corpo vestido por uma roupa elegante, na outra parte via-se um rosto de mulher com um cabelo completamente desalinhado, lembrando uma mulher primitiva.
Tentou ajeitar-se como pode. Saiu um tanto sem jeito. O garçom sonolento esperava apoiado no balcão. O bar estava vazio. Ela tentou dizer alguma coisa como até logo, ou bom dia, mas não conseguiu dizer nada. Ganhou a rua e foi para sua casa.
Era quase noite novamente quando se acordou. O corpo ainda trazia aquele cheiro de folhas, de mato molhado e um relaxamento cansado que lembrava a noite passada. Pensou em tomar um banho, mas não queria trocar aquele cheiro da sua pele por nenhum perfume que possuía. Colocou a primeira roupa que encontrou e saiu.
Ultrapassou o portão de grade, subiu as escadas e hoje, aliado ao cheiro das velas, havia uma música de órgão com um coro de muitas vozes. Era dia de celebração. Não estava muito interessada nisso. Dobrou à direita e dirigiu-se ao altar do santo. Lá estava ele aos pés do santo. Olhava para aquele lugar indefinível. Resolveu fazer o que já tinha tido vontade muitas vezes. Foi adiante da bancada e colocou-se ao lado da imagem, quase atrás do santo. Foi então que teve a certeza: o lobo olhava para ela. Seus olhos brilhavam naquela penumbra de velas e fitava firmemente os olhos dela. Ficou ali algum tempo, olhando para aquele olhar selvagem, firme e decidido, quase doce.
Saiu da igreja devagar como sonâmbula e ficou vagando pelas ruas até escurecer totalmente. Voltou ao bar da noite anterior. Não tinha prestado muita atenção nas pessoas no outro dia, mas não reconhecia ninguém. Avistou o garçom sonolento, era o único que reconhecia. Pensou em perguntar para ele, mas perguntar o que? Como era mesmo o nome dele? Ela lembrava de ter perguntado em um dos poucos momentos em que falaram. Ele tinha respondido com outra pergunta. Que importância tinha um nome se o que ela queria ele sabia e o que ele queria ela adivinhava. Na hora, fazia sentido, mas agora como ela ia perguntar por ele. O que a moça deseja? Ele não apareceu aqui hoje? Nem vai aparecer. Eles foram embora. Eles? Ele e o bando dele. Matilha. O que? Não, nada. Obrigada. Não tem de que.
Entrou em casa e foi para o quarto da avó. Era lá que ela se refugiava quando estava triste. Deitou-se na cama. Vovó, como tu me fazes falta. Lembrou dos últimos tempos, quando a avó já estava bem mal de saúde e poucas pessoas tinham paciência de conversar com ela, pois xingava todos, reclamava de tudo. Numa destas tardes, ela tinha sentado ali na cadeira e observava a avó que estava quieta, olhando para o teto. De repente a velha virou-se irada para a imagem do santo italiano e gritou: Santo estúpido! Santo burro! Como imaginar que um lobo pode ser chamado de irmão! Um lobo será sempre um lobo!
Foi com os olhos cheios de lágrimas que olhou para o santo de madeira e lá estava ele com sua túnica, seu sorriso ingênuo, suas pombas e um lobo deitado aos seus pés.
