quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Brincadeiras...

ESCONDER



               APARECER



BRINCADEIRA DE LUA...



CHEGAR


PARTIR...










BRINCADEIRA DE GENTE.

sábado, 18 de dezembro de 2010

MEU PROPÓSITO PARA 2011

Nesta época de festas de final de ano a gente recebe muita coisa pela internet. Eu recebi uma mensagem muito criativa e divertida com o título "história do natal digital" (muitos de voces já devem conhecer). Anexei aqui o endereço do youtube para quem não conhece
http://www.youtube.com/watch?v=tgtnNc1Zplc

mas o que me chamou mais atenção foi a observação de quem me mandou "para a gente não perder mais tempo com esta história de Natal..." Olhando o filmezinho, o que mais se nota é a velocidade com que tudo passa. A gente quase não consegue ver tudo na primeira olhada. Fiquei pensando que este é o nosso rítmo, é assim que estamos vivendo, educando filhos, nos relacionando... Por conta dessa reflexão, resolvi que o meu propósito para 2011 é aprender a perder tempo.

Perder tempo olhando pela janela do meu quarto todos os dias quando acordar - Me dei conta que moro nun lugar lindo, ao lado do mato e que muitos dias acordo e saio sem olhar para as minhas vizinhas árvores, com seus pássaros e seus cantos...

Perder tempo com os afetos - Tem tantas pessoas que eu gosto e quase não vejo, não ligo, não mando uma mensagem, um torpedo que seja, só para dizer "te gosto muito", "me deu saudades de ti", "tu és muito importante pra mim"...

Perder tempo comigo - Parar, pelo menos uma vez por semana, para perguntar para mim mesma "como vc está"? "como foi sua semana"? "o que mais estás sentindo falta neste momento"? Eu faço isso com os outros, com muita gente, mas comigo não.

Por isso, amigos, não estranhem se em 2011 voces receberem sem mais nem menos uma mensagem dessas, vindas da minha parte. Só estarei cumprindo meu propósito. Se quiserem fazer o mesmo, vou adorar receber recados, visitas, telefonemas... afinal, para que existe a tecnologia? Não é para aproximar as pessoas?

EU SÓ


COMO O SOL

COMO A LUA
BEM QUE PODIA SER ARTE
MAS É APENAS
DOR...





sábado, 31 de julho de 2010

REDUÇÃO DE DANOS E TABAGISMO




“a minha alucinação é suportar o dia a dia
o meu delírio é a experiência com coisas reais”
Belchior


Para a reflexão sobre este tema gostaria de usar uma fundamentação teórica que talvez pareça estranha, mas que eu acredito ilustrar o que de mais importante possa ser dito sobre o assunto.
Resumo aqui a história de um livro infanto-juvenil chamado O Mágico Desinventor. Esta história tem um mágico, é claro, com cartola, coelho branco, varinha mágica e que possui um poder ilimitado. Ele se preocupa muito com as crianças, e, por ser uma pessoa muito boa, quer a felicidade delas. Assim, põe-se a observar a vida de crianças que brincam perto da sua casa e fica imaginando quais são os maiores impecílios para a felicidade delas. A partir da sua observação chega a algumas conclusões e com o poder que possui passa a “desinventar” todas as coisas que percebeu como obstáculos para a felicidade das crianças. Sendo assim, no primeiro dia desinventa a televisão, no segundo os automóveis, no terceiro todos os tipos de armamentos e no quarto dia desinventa o dinheiro. O Mágico ficou muito feliz pois imaginou que conseguiria assim resolver todos os problemas que impediam a felicidade das crianças.
É ficção infantil, mas dá para imaginar o caos formado a partir das desinvenções. A partir disso o Mágico resolveu consultar as crianças para ver o que tinha dado errado e na simplicidade que só as crianças conseguem ter, elas responderam que não adiantava desinventar as coisas porque não eram as “coisas” que atrapalhavam a felicidade delas e sim o uso que se fazia delas. Vale a pena ler o livro para conhecer o desenrolar desta história, mas aqui nos interessa a metáfora que ele nos propõe.
Ao falar de tabagismo estamos tratando de um grave problema de saúde pública e também estamos falando de um uso muito antigo na nossa sociedade. Poderíamos nos perguntar se o uso de tabaco sempre foi um problema tão grave como agora. Isto cabe para qualquer outro tipo de droga que possamos pensar, mas vamos nos deter no tabaco que é nosso assunto neste momento.
Todos sabemos os danos à saúde que o uso do tabaco pode trazer. Vamos imaginar, como o mágico da história, que o tabaco é um empecilho para a saúde e para a qualidade de vida da população. Será que dá para imaginar que temos o poder do nosso mágico e desinventar o tabaco? E com isto vamos salvar a população desta chaga que mata e causa sofrimento para mais de 1 milhão de pessoas no mundo?
Em toda a história do homem existiram drogas e apesar de diferenças históricas, o seu uso sempre existiu. Provavelmente nunca foi tão danoso como o é na sociedade contemporânea. Será que foram só as drogas e o seu efeito que mudaram ou a sociedade, seus valores e conceitos também estão diferentes?

Imaginemos um agricultor de uma cidade do interior que fumava um cigarro feito de palha e com fumo de rama. Para fumar um cigarro ele precisava um bom tempo para afinar a palha com canivete, picar o fumo bem pequeno, montar o cigarro e depois fumá-lo. A industrialização do cigarro mudou isto. Com o tempo que o agricultor levava para fazer um cigarro, o homem moderno pode fumar 2 ou 3 cigarros. E não é só a quantidade, mas muda também a qualidade dos produtos consumidos no cigarro de palha e no cigarro industrializado. Estamos falando do tabaco, mas são mais de 4.000 substâncias existentes no cigarro que causam problemas de saúde ao fumante.
No ano de 2003 tive a oportunidade de participar de um grupo de estudos sobre o uso de crack que foi uma escola muito importante para todos os que dele fizeram parte. O estudo se fazia em conjunto entre técnicos de saúde e usuários de crack. Eles nos contavam como usavam e isto nos ajudava a pensar conjuntamente nos danos que estavam associados a este uso. Percebemos, por exemplo, que além do crack em si, ou seja, do efeito da cocaína que contém a pedra, o uso da pedra numa lata de refrigerante achada no chão ou na lata de lixo deixava o usuário exposto a vários outros danos: a sujeira da lata, o calor no metal que superaquecia a boca, os produtos químicos que eram liberados da lata com o calor, a cinza de cigarro que era usada como carvão para manter a pedra acesa e que entrava sem nenhuma filtragem nos pulmões. Tudo isto pode ser observado pelos próprios usuários que começaram a inventar formas de usar crack de forma menos danosa, por exemplo não usando lata mas um copinho plástico, uma garrafa plástica com água no fundo, o que não trazia tantos problemas quanto a lata.
Podemos estar imaginando “mas eles continuaram usando crack”. Na maioria dos casos sim, mas com certeza por um bom tempo eles estiveram dentro de um serviço de saúde pensando sobre sua saúde e com isto fizeram vínculos com técnicos que eles vão poder contatar com mais facilidade se eles realmente desejarem parar.
A convivência com os usuários de drogas, as discussões que eu já tive oportunidade de ter com eles sobre o seu uso, o acompanhamento que eu já pude fazer do seu processo de relacionamento com o seu uso me fizeram descobrir algumas coisas que hoje para mim são muito importantes.
1. Não existem receitas, não existem definições que possam servir para todos os casos. Cada usuário é diferente e cada um estabelece relações ímpares com a droga.
2. Se a droga ocupa um lugar privilegiado na vida desta pessoa, ele só vai deixá-la por um motivo muito forte para ela. Não basta que o motivo seja forte para os dados epidemiológicos, para o técnico de saúde ou para a sua família.
3. O fato deste sujeito não conseguir ou não querer parar de usar esta droga não quer dizer que ele não se interessa pela sua vida ou pela sua saúde ou que ele se negue a discutir este assunto com alguém que esteja disposto a ouvi-lo. Mas para isto é necessário que a gente esteja disposto a ouvi-lo como ser único que tem uma vivência ímpar e que portanto tem uma saída igualmente impar para os seus problemas.
4. Qualquer abertura para uma reflexão sobre o uso é uma vitória. O uso compulsivo é sempre mais danoso e mais intenso. Se houver uma possibilidade de pensar: aqui não, agora não, por que mais um, desta forma não, já se estabeleceu um pensamento entre o desejo/necessidade e o uso e isto é um passo muito importante.
Se levarmos em conta esta aprendizagem, podemos pensar como a redução de danos pode lidar com a questão do tabagismo. Em primeiro lugar não existe “o fumante” e sim os fumantes que estabelecem relações diferentes com o cigarro e que fazem uso de maneiras muito diversas apesar de à primeira vista parecer que tudo é igual. Isto é fundamental se quisermos ajudá-lo pois teremos que estar dispostos a acompanhá-lo na sua reflexão, nas suas tentativas e no que estão dispostos a mudar em relação ao seu uso. Isso do ponto de vista individual porque é assim que é possível alguma mudança real na relação de cada fumante com o seu uso.
Se pensarmos enquanto sociedade, enquanto saída coletiva com certeza as formas de regulação de locais especiais para uso tem uma eficácia importante. Apesar de muitas vezes ser usada como uma forma de constrangimento, a regulação de locais e momentos possíveis para o uso do tabaco faz com que o fumante diminua o seu consumo e principalmente aprenda que pode retardar o próximo cigarro, desde que o motivo seja importante, por exemplo durante a aula. Isto também contribui para que ele experimente o fato de que ele é capaz de se concentrar e pensar sem estar fumando. Este distanciamento causado por uma imposição social acaba sendo uma experiência individual e uma aprendizagem que ele está fazendo sobre o seu corpo e sobre o seu consumo.
Isto pode parecer muito pouco comparado com o tamanho do problema, mas aprendi a reconhecer o alcance e o limite da nossa intervenção. Não sei quanto a vocês, mas a minha experiência tem me ensinado que mágicos desinventores não existem, que um mundo sem drogas habitado por seres humanos é uma ilusão e eu prefiro viver a realidade das coisas.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

OUTRAS PALAVRAS SOBRE REDUÇÃO DE DANOS


TRAGO AQUI REFLEXÕES QUE VENHO FAZENDO SOBRE REDUÇÃO DE DANOS

Redução de Danos e Saúde Indígena

Para pensar nisso preciso contar uma historinha.
Quando iniciamos a discussão da Redução de Danos (RD) em Porto Alegre, percebemos que o nosso “conhecimento” baseava-se muito em experiências com uso de heroína, que é muito diferente do nosso uso de cocaína brasileiro. Onde mais aprendi sobre RD brasileira foi na rua e numa capacitação que fizemos na PUC onde cada “palestra” era feita com o ponto de vista de um técnico e de um UDI. Foi ali, assistindo os UDIs falarem do seu uso que nós reorganizamos o tal “kit de RD” que tinha que adequar as seringas às necessidades dos usuários e que na verdade era só um “dispositivo” para conversa com eles porque a troca de seringas acontecia deixando-se caixas de seringa e caixas coletoras com os usuários, pois 2 seringas no Kit só serve para usuário de heroína. O uso de cocaína exigia uma quantidade de material muito maior.
Por que trago isso agora? Porque novamente estamos lidando com uma experiência de uma “tribo” e tentando adequá-la a outra “tribo”.
Em uma reunião que participei, na organização de uma capacitação sobre RD para técnicos da FUNASA, uma técnica de saúde indígena citou a fala de um índio que já teve problemas com álcool e que agora estaria em abstinência e esta fala ficou ecoando em mim como se eu precisasse entender mais o que foi dito. Ele teria falado que “se um índio não pode pescar, caçar... o que faria?” (algo assim...)
Neste final de semana eu fiz um curso com um índio guarani de São Paulo onde ele falou muito sobre a sua cultura e religiosidade (que pra ele não são duas coisas). Foi aí que percebi porque aquela fala me pareceu que tinha mais coisa por trás. Para nós, não índios, não poder pescar quer dizer não ter lazer, estar sem tempo pra descansar, etc. Nós vivemos em apartamentos, usamos ônibus, caminhamos em calçadas e isso não nos atrapalha muito. Precisamos de vez em quando ir a um parque, mas ainda assim reclamamos das formigas. Para um índio não pescar, não caçar é estar longe de si mesmo de uma forma muito mais intensa do que a gente imagina ou entende. Ele se constitui enquanto ser a partir dessas práticas.
Estou achando que quando colocamos como tema de uma parte da nossa capacitação: “Uso de drogas como sintoma social” faz muito sentido para nós. Será que para índios é isso? Será que o melhor não seria partir dessa pergunta: Por que um índio usa drogas e por que ultimamente isto está virando um problema dentro das aldeias? Está me incomodando um pouco esta sensação de estar falando de um “bolo”, dizendo que não vamos dar uma “receita de bolo”, mas partindo de “ingredientes” que talvez não sejam os usados por eles. Não sei se me faço entender...
O guarani de quem falei antes, citou a expressão “maku” (não sei se é assim para os kaigang também) que seria uma pessoa que por ser mais sensível e às vezes mais forte, se presta para ser o “ovelha negra”, aquele que destoa, aquele que dá problemas para a família, para o clã. Eles dão trabalho, incomodam, preocupam, mas em algumas cerimônias se honram estas pessoas e se pedem o alivio do seu sofrimento, pois eles ajudam a família sendo o depositário da “doença familiar”. Não sei se estou dizendo alguma bobagem, se for isso me perdoem e me corrijam, mas foi como entendi. E achei parecido com a situação dos usuários de drogas em muitos lugares, muitas famílias, muitos grupos e, por que não, nos nossos serviços de saúde.
Será que o uso de drogas como problema dentro das comunidades indígenas, apesar de estar muito ligada ao seu contato com a cultura não índia, não deveria ser analisada do ponto de vista da “sua” cultura e não da nossa? Sei que a capacitação é para técnicos não índios que trabalham na FUNASA, eles são a população alvo da capacitação, mas o nosso objetivo mesmo é entender e saber como atuar na questão da dependência química de índios, eles são nosso objetivo final. Será que não seria o momento dos técnicos não índios sentarem numa roda e ouvir as lideranças indígenas, os mais velhos, os que conhecem melhor os problemas da aldeia e assim, na roda, tentar ver como poderíamos ajudar? Em que? De que forma? Temos conhecimentos sobre o efeito das drogas que estão sendo usadas, mas é apenas a parte química e sabemos e como isso se inscreve na nossa cultura. Como isso se inscreve na cultura indígena e as formas de trabalhar com estas pessoas, provavelmente eles possam saber melhor do que nós.

Confesso que estou com medo de ter falado bobagens demais. Tenho um amigo que diz que todas as idéias são válidas, nem que seja como adubo. Espero que estas minhas sirvam pelo menos pra isso.

REFLEXÕES NA LOTAÇÃO


Hoje, quando eu ia para o trabalho, entrou na lotação uma moça com um menininho no colo. Ele devia ter cerca de 1 ano. Eles sentaram no primeiro banco e ele passou a cumprimentar todos os que entravam “OI” e um sorriso, e todos os que saíam “TIAU” e um abano sorridente.
Impossível entrar e não responder o cumprimento ou descer sem se dirigir a ele e também sorrir. Em pouco tempo notei que eu também sorria para todos os que entravam e todos, numa cumplicidade gerada pelo menino, estavam mais leves e mais alegres.
Lembrei que o meu filho, quando tinha 2 anos perguntava para mim o nome de todas as pessoas que entravam no ônibus achando que eu devia sabe-lo e que muitas pessoas acabavam dizendo o seu nome para ele.
Fiquei pensando, com uma certa tristeza, sobre esta sociedade onde nós “educamos” essas crianças a deixarem de ser solidárias, a “entenderem” que temos que ser estranhos uns aos outros e que não devemos nos tocar, ou nos envolver com os vizinhos ou com as pessoas que sentam ao nosso lado na lotação. Por que nós não aprendemos com eles??

terça-feira, 27 de julho de 2010

UM TOQUE DE HÉSTIA



Eu estou relendo o livro “As deusas e a Mulher” da Jean Bolen. Por sincronia do
universo, li o Capítulo que fala da deusa Héstia justamente em julho.

Neste mês faria aniversário (se estivesse ainda entre nós) a minha tia e
madrinha, a quem eu chamava de “Dinda”. Ela foi sempre solteira e morou na
nossa casa desde o meu nascimento até que eu tinha uns 7 anos. Tudo isso me trouxe muito forte a presença dela nos últimos tempos.

Lembro dela me ensinando a cuidar das roupas, arrumar as gavetas, dobrar
meias... e tudo tinha um ar de brincadeira. Foi assim que descobri a magia
de lavar roupas. Talvez as mais novas só conheçam o ato de pegar a roupa e
colocar na máquina e pendurar na área do apartamento. Isso realmente não
parece muito mágico.

Mas na minha infância, nas sextas-feiras a Dinda tirava todas as roupas de
cama (brancas!!!) para lavar. Primeiro era aquela festa de espuma no tanque
cheio onde eu só alcançava em cima de um banquinho e fazia bolinhas de sabão com as mãos enquanto ela lavava. Depois vinha a minha participação mais séria. Ela colocava os lençóis sobre um gramado que tinha sido feito
especialmente para isso e deixava que ficassem lá quarando.

( Neste final de semana fazendo o curso com o Kaká Werá é que descobri que a energia feminina do sol chama-se Kuarací e deve ser ela a responsável por ajudar as roupas a ficarem mais brancas imitando o seu brilho.)

Então eu sentava sob o carramanchão e ficava brincando e ao mesmo tempo
cuidando para a roupa não secar. Quando ela mostrava que começava a secar eu ia lá com meu baldinho e jogava com a mão sobre ela fazendo uma chuvinha de água ensaboada. Outras vezes eu viajava no brinquedo e ouvia a voz da Dinda vinda lá do tanque “Olha o sol!”e eu corria fazer a minha chuvinha. Depois, quando ela achava que Kuarací já tinha feito o seu trabalho, pegava os lençóis e enxaguava. Aí vinha a parte mais mágica!! Ela enchia uma bacia grande com água limpa e eu pegava minha troxinha de pano com um pozinho mágico dentro (o anil) e ia passando e deixando a água toda azulada. Aí os lençóis mergulhavam naquela piscina azul e iam ficando cada vez mais branquinhos. Depois a Dinda estendia no arame e erguia com uma vara de taquara e eu ficava por ali pulando em baixo tentando alcançar e sentindo aquele cheirinho gostoso de roupa limpa.

Foi assim que eu aprendi a magia que cria o prazer de deitar numa cama com
lençóis cheirosos. Aprendi isso pelas mãos de uma deusa Héstia.
Que Kuarací a guarde com carinho no seu colo quentinho de luz...

CICLOS




Em 2007 consegui realizar um importante sonho pra mim: construímos e fomos morar em uma casa em Viamão. Desde o início da construção tenho aprendido muito sobre ciclos.
Primeiro foram os ciclos humanos :
1.burocracia, papéis, plantas, autorizações, taxas, taxas, taxas... sem colocar
um tijolo na obra;
2. “limpeza” do terreno: que dor! Nosso terreno tinha uma mata nativa muito
linda e precisou ser “limpo” para a construção acontecer. Apesar de eu e meu marido termos claro desde o início que queríamos manter o mato onde fosse possível, várias árvores precisaram ser derrubadas. Todas de pequeno porte e com autorização do biólogo da Prefeitura, mas várias vezes eu me via pedindo paciência para os guardiães do lugar, que tínhamos boas intenções, mas afinal, éramos humanos e não sabíamos viver sem destruir as coisas.
3. Convivência com a obra: esta foi terrível porque para os trabalhadores que construíram a casa, mato quer dizer “grande lata de lixo”. Nos finais de semana íamos pra lá com sacos de lixo e fazíamos o que apelidamos de “patrulha ecológica” que consistia em passear pela obra e pelo mato, catando tudo o que achávamos de lixo. Eram vários sacos de carteiras de cigarro, sacos plásticos, pedaços de ferramentas e muitos cacos de telha e tijolo espalhados por todos os lados.
4. Enfim fomos morar lá! O terreno todo parecia estar num sala de recuperação após uma intervenção cirúrgica complicada. Foi assim que tentamos tratá-lo: como um convalescente. Ele retribuiu e foi sarando aos poucos e aos poucos nos acolhendo generosamente.
5. Viver na casa – esta está sendo outra aprendizagem sobre ciclos, agora da natureza. Primeiro foram as flores. Parece que todos os fiozinhos de capim resolveram florir! E foi rápido e se foram também rápido. Esta foi a primeira aprendizagem: as coisas vêm e vão rapidamente e quando se vão, pode esperar porque algo novo está chegando. Às vezes nem tão agradável assim.
Foi assim que chegaram os bichos-cabeludos e invadiram tudo. Entravam pelas janelas, subiam as escadas. Podiam estar em qualquer lugar desde nas cadeiras como dentro dos calçados. Um dia sem mais nem menos eles sumiram. Apenas um eu acompanhei. Ele se prendeu na beirinha da janela e todos os dias enquanto eu tomava café da manhã, acompanhava a sua metamorfose. Ele que era preto foi ficando um casulo branquinho e cresceu e ficou quieto por vários dias, até que eu vi que ele estava se rompendo e uma borboleta laranja surgia. Fui para o trabalho e quando voltei o casulo estava vazio. Um dia levantei pela manhã e na janela da cozinha podia se ver umas centenas de borboletas brancas pequeninhas que voejavam dando a impressão de estar nevando. Poucos dias e no meio da tarde, no sol quente, apareceram borboletas azuis enormes com um brilho de neon nas azas. São lindas e passam a tarde se borbeleteando pelo mato.
Nós já estamos aprendendo a comentar: o que apareceu hoje? Pode ser um bando de besouros que buscam as lâmpadas de noite, os marimbondos que procuram lugar para construir suas casinhas de barro, os filhotes de sabiá que estão aprendendo a voar e que se assustam com a gente... Sempre tem novidades.
Ontem à noite veio mais uma e esta me fez pensar em escrever pra vocês sobre isso. Estávamos sentados assistindo a nossa televisão de 3m com tela profunda (que é a janela da área que dá para o mato) quando começamos a perceber algumas luzinhas. Apagamos as luzes e assistimos um lindo espetáculo de balé, dos vaga-lumes! Lembram a propaganda do Zaffari? Pois era bem assim. Quem inventou aquele comercial deve ter vivido numa casa e observado o céu perto do Natal.
Neste momento de mudança de ano, mais um ciclo humano, desejo pra vocês um despertar para a observação da natureza. Eu precisei vir para o meio do mato para descobrir algumas coisas, mas estou certa de que onde quer que se more, a natureza grita e pede a nossa atenção. Afinem os ouvidos, os olhos e, no meio do cotidiano, indo ou vindo de carro ou de ônibus, fique atenta ela deve estar dizendo algo. São estas lições de mãe que a gente pode ter deixado de escutar e que estão nos fazendo falta para lidar com nossos próprios ciclos. Com as chegadas, com as despedidas. Com a época da flor e com a da semente. Os silêncios dos casulos e o canto do pássaro... ai!... que acaba de cantar sem a menor culpa depois de ter pousado e cagado todo o espelho do meu carro...
enfim... há que se aprender a paciência também...
Dezembro 2007