Eram tempos difíceis aqueles. Muita chuva, muitas bocas para alimentar.
Vim ao mundo numa madrugada fria. O que meu pai desejava era mais um filho de braços fortes para a lavoura. Cheguei prematura, fraquinha e mulher.
Mamãe dizia que nasci rápida como uma flecha. E assim, cresci correndo pelo campo, cruzando rápida como o vento por entre as plantações.
Mas tinha uma grande diferença: uma flecha tem uma direção, um rumo e eu nunca soube onde queria chegar.
Cresci como as plantas: não por seu desejo, mas por sua natureza.
Papai me olhava com uma disfarçada tristeza como a uma vaca que não dá leite ou a um cachorro sem faro.
O vigário também tentou introduzir-me em santos caminhos, mas a fumaça das velas e o cheiro de incenso me faziam desmaiar e duvido que mesmo os santos quisessem escutar meus cânticos desafinados.
Minha sorte foram meus irmãos. Acho que também se preocupavam e pela maior proximidade comigo, conseguiram descobrir minha vocação.
Foi assim que, às escondidas, acho que para fazer uma surpresa para papai, começaram a ensinar-me um ofício. Requeria um certo preparo físico e por isso todas as tardes corríamos para o meio da plantação e lá me colocavam de braços bem abertos, a olhar para frente e a proteger a plantação dos terríveis pássaros que quisessem atacá-la.
No início eu cansava os braços, mas meus irmãos acreditavam em mim e insistiam que eu continuasse me exercitando.
Quando viram que eu já estava apta, conseguiram vestimentas adequadas: chapéu de palha, calças e camisa bem grandes e coloridas para ficarem voando ao vento e até uns lápis coloridos para realçar meus traços amarelados.
E foi assim completa e feliz que meu pai me encontrou, creio que atraído pela algazarra que meus irmãos faziam.
Foi um momento emocionante: enfim meu pai me olhava nos olhos. Os meus sorriam de orgulho, os dele se enchiam de lágrimas.Não sei ao certo, talvez porque ache que eu ainda sou pequena, mas ele não estimulou que eu continuasse meu treinamento. Olhou firmemente para meus irmãos calados e encolhidos e carinhosamente pegou-me no colo elevou-me para casa.
Meus irmãos desistiram do treinamento, mas lhes serei eternamente grata.
Já peguei umas roupas grandes no varal e escondi junto com meus brinquedos lá no porão e todos os momentos em que todos estão ocupados, corro para o meio da plantação, fixo os olhos no horizonte e abro bem os braços.
Quero estar bem preparada para quando eu crescer.
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