terça-feira, 11 de janeiro de 2011

OUTRO ÂNGULO

Não lembro bem quando foi que comecei a pensar. Faço um esforço para lembrar o começo, mas não sei ao certo. Só sei que há algum tempo passei a perceber as coisas e a tentar entender o real sentido que elas têm.

Algumas se repetem bastante e outras demoram a repetir. Fico tentando entender qual é a coisa central, aquela da qual todo o resto depende.

Tenho achado que a coisa central é mesmo de onde vem a luz. Percebi certo dia que primeiro vem um barulho e depois dele a luz vem do lado direito. Sei disso por causa das sombras. Lentamente vão surgindo sombras que vão ficando compridas e depois ficando pálidas e então esta luz vai apagando e um barulhinho assim ‘plic’ faz a outra surgir. Esta é bem bonita. Fica no centro de tudo. Vem de uma bola branca com um risco dourado por fora. Não sei qual das duas é mais importante, a que vem do lado direito ou a do centro de tudo.

Eu prefiro a segunda. Esta eu vejo de frente, brinco com ela. Fecho os olhos e ela some, abro os olhos e ela está lá, vou apertando os olhos de vagarinho e ela vai fazendo riscos luminosos para os lados. A outra, que vem do lado direito, só imagino. Só reconheço por causa das sombras que aparecem no tudo e que ficam compridas e que somem.

Tenho achado que esta é a coisa principal porque observo que tem ruídos que só acontecem quando a luz vem da direita: vozes, patas de cavalo, cantos de pássaros. É no reinado desta luz que aparece o rosto da Velha e me diz ‘Bom dia minha menina’. Às vezes tem carinho nos seus olhos, outras vezes lágrimas e em outras ainda, não tem nada. Depois vem a Moça, que poucas vezes me olha nos olhos. Tira coisas, bota coisas, traz colheres bem perto dos meus olhos, assopra coisas nas colheres, passa panos.

Antes, acho que eu não pensava sobre isto ou sobre qualquer outra coisa, mas ultimamente me ocupo de resolver questões como: por que se sucedem luz que vem da direita e luz que brilha no centro de tudo? Ou então, para que servem colheres, panos, lágrimas e suspiros?

Quem traz novos elementos para estas minhas questões é a Irmãzinha, pelo menos é assim que a Velha costuma lhe chamar. ‘Olha, a Irmãzinha veio ver você’. Faço meu melhor olhar nestas ocasiões, pois vejo que isto faz com que ela preste mais atenção em mim e me diga coisas para eu ficar pensando. Ela é muito parecida com a Velha só que usa um pano preto na cabeça. Ela tem falado coisas que me deixam muito intrigada.

Primeiro ela disse que Deus é muito meu amigo e me quer muito bem. Pensei que ele viria me olhar como ela faz, mas ele nunca veio. Depois, a partir de outras conversas, das quais eu não entendo a maioria das palavras, entendi uma frase ‘Deus é luz’. Então passei a perceber que esta coisa era a mais importante: a luz que vem da direita e a outra que está no centro de tudo. Quando pensei que tinha entendido tudo, ouvi outra frase que me confundiu ‘Deus, só existe um. Um único. Passei então a tentar descobrir qual das duas luzes era Deus.

Eu prefiro a luz da bola branca, mas a que vem do lado direito é mais quentinha. No seu reinado tem mais vozes, a Velha e a Moça vêm me olhar e trazer colheres e panos. E tem um outro acontecimento, que não se repete muito, mas que me faz muito feliz e que só acontece quando a luz vem da direita: as Moscas.

Elas caminham, limpam as patinhas, voam, voam e quando são várias, fazem uma coreografia linda. A parte que mais gosto é quando uma fica sobre a outra. É um instante apenas, um momento rápido, fugidio, mas que eu pressinto ter uma grande intensidade. Eu olho, olho e temo piscar e perder aquele momento.

Quando as Moscas aparecem e voam e dançam e ficam uma sobre a outra, tenho certeza de que Deus é a luz que vem da direita. Além disso, a Irmãzinha sempre vem me olhar durante o reinado da luz da direita.

Gostaria de poder perguntar-lhe se estou certa. Ela parece saber tanta coisa, só que meus olhos não sabem se explicar muito bem.

Mas algo de muito novo aconteceu e foi no reinado da luz no centro de tudo: a Irmãzinha veio me olhar e junto estavam a Moça e a Velha. As três juntas me olhando. Nos olhos da Moça tinha cansaço. Nos olhos da Velha havia lágrimas. Nas mãos da Irmãzinha, continhas pretas amarradas num cordão. Na sua fala, muitas palavras que não conheço e a grande revelação: ‘Deus está lá em cima e ele está te esperando. Quer você perto dele’.

Então eu soube: Deus era mesmo a luz no centro de tudo, aquela que brilha na bola branca com a lista dourada por fora. Mas por que ele me espera lá em cima? Como tudo é confuso... Como é difícil entender o sentido das coisas! Como eu sempre me engano!

Acho mesmo que fiquei revoltada com a minha ignorância e por isto fechei os olhos por um longo tempo.

Quando tornei a abrir, tudo tinha acontecido. Tudo estava mudado para sempre. Não via mais o rosto das três. Podia vê-las de cima. O cabelo da Moça amarrado na nuca, as mãos postas perto do rosto. O lenço preto de renda na cabeça da Velha, as mãos segurando uma flor. O pano na cabeça da Irmãzinha, as bolinhas pretas penduradas no cordão circulando as suas mãos. As três ajoelhadas ao redor de uma caixa de madeira com flores ao redor.

Então compreendi que a Irmãzinha tinha razão: Deus, a luz da bola branca com lista dourada em volta, gostava mesmo de mim e tinha me levado para junto dele. Eu agora estava também no centro de tudo. Só faltava as Moscas chegarem bem perto para eu ser completamente feliz.

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