O trabalho na Redução de Danos para mim foi mais do que um "fazer". Foi um "fazer-se". Muito do que eu sou hoje é resultado do que vivi, aprendi e refleti neste período (1996-2002). Aqui serão postados alguns escritos daquela época, reflexões que fiz e dividi com meus companheiros de plantão e que ficaram registrados através de "diários de campo", ferramenta que usávamos para avaliar e dividir as experiências do dia a dia.
O APITO DA PANELA DE PRESSÃO
“Sei que assim falando, pensas
que este desespero é moda em 76
Mas quero que este canto torto
feito faca, corte a carne de vocês...”
1976. Plena ditadura militar. Temperatura amena para o inverno gaúcho. O cartaz no poste chamava: Apresentação do filme: O Apito da Panela de Pressão”. O Bar do CEUE, na Faculdade de Engenharia estava cheio. Na tela improvisada desfilavam cenas da repressão policial às recentes passeatas estudantis em São Paulo. A alusão ao apito da panela, dava a entender que a sociedade não aguentava mais a situação e que as manifestações dos estudantes eram o aviso, o sinal de que já não dava mais para esperar: A HORA É AGORA!
Até ontem a luta política para a nossa turma era um misto de paixão-convicção-brincadeira-moda-única saída.
Até ontem os presos políticos tinham alguns nomes mas não tinham cara, eram alguns números e tinham alguns locais como destino (Itamaracá, exílio, etc.)
Até ontem.
Mas ontem, mais uma passeata não conseguiu se realizar em Porto Alegre por excesso de tropas militares espalhadas na cidade. Ficamos andando no Centro às tontas sem saber como juntar as pessoas. Na subida da Praça Raul Pila tivemos a notícia: “Pegaram o Zé”. Ninguém sabe ao certo. Foi tão rápido. Estavam à paisana...
Hoje vivíamosa reticência do dia seguinte. Falta de notícias, medo de saber, de ser o próximo...
Hoje o que chocava não era o número de desaparecidos-vítimas-da-ditadura-militar.
Hoje o que chocava é que o Zé estava desaparecido. E não se sabia se ia voltar e como ia voltar.
E não se sabia se o apito da panela de pressão ia ser ouvido a tempo.
1998. Tempos de estabilidade econômica nas mãos do FHC. Dia ensolarado de outono. Tempos de crise das instituições mas de liberdades democráticas. Tempos de grandes desigualdades econômicas e de grandes descobertas da ciência . Enfim, tempo de muita hipocrisia. Tempos de AIDS.
Muitos relatórios, muitas pesquisas, muitos projetos, muita boa intenção, muita gente ganhando dinheiro em cima da doença e muita gente sincera trabalhando como pode. 22 anos depois, pensei que já tinha aprendido muito sobre a vida e sobre os números, mas neste dia ensolarado de outono, descobri que nenhuma estatística sobre o número de doentes de AIDS foi capaz de me chocar tanto como a visão da Graça. Eram dois olhos vivos em um corpo que parecia não estar mais ali.
Saí do Hospital com aquela sensação de soco na boca do estômago e de impotência diante daquela situação. Olhava para a rua, para as pessoas e pensava que praticamente toda a cidade sabe da existência da AIDS, de como pega, como se cuidar... só que os números de infectados só aumentam.
Os números são um alerta. Nosso trabalho é um alerta. O sofrimento de todas as Graças é um alerta. Mas me volta aquela dúvida antiga: não sei se o apito da panela de pressão vai ser ouvido a tempo.
Porto Alegre, 18 de maio de 1998
DIÁRIO DE VÁRIOS CAMPOS
18 de maio de 1998
O dia 18 foi um dia e tanto! 14 horas de trabalho seguido no PRD: a dor de ver a Maninha, o susto de ver o Tonico preso, o plantão na Bom Jesus e a sensação de que tudo está por fazer... A sensação de não poder fazer muita coisa e ao mesmo tempo ter que fazer alguma coisa.
Foi um dia tenso, sofrido mas com grandes lições: A MELHOR SAÍDA É SEMPRE ESTAR PRESENTE. Na dúvida, esteja lá... depois se descobre pra que. Foi assim com a Maninha no Hospital, com o Tonico no Palácio da Polícia e com o plantão à noite.
Apesar da situação, foi uma cena bonita ver o Tonico na polícia pois mesmo preso, manteve sempre a cabeça erguida. O papo com o Tenente deixou claro que ele soube se explicar bem com o policial, que não perdeu a calma e que mostrou que realmente quer outro lugar agora. Acho que a melhor defesa quem fez foi ele mesmo, seu jeito de falar com o policial. A nossa presença lá só reforçou isso: ele é dos nossos, não está sozinho. No fundo esta prisão estava anunciada, era só uma questão de tempo e trouxe a chance de retomar a sua vida, seus documentos, sua cidadania e num futuro próximo não estar devendo mais nada à justiça.
O plantão à noite foi uma experiência diferente para mim que só tinha entrado em áreas onde o trabalho já estava desenvolvido. Na Bom Jesus percebi como é um trabalho no começo, quando o projeto é desconhecido nas ruas, o clima tenso que se sente ao passar pelo tráfico que ainda não é doméstico. Foi interessante, como diria a Fatima: dos mais 10!
De madrugada pensei muito na Maninha. Fico lembrando aquela alegria ambulante que era aquela baixinha. (O pior é o tempo do verbo. O nome certo deste tempo do verbo seria Passado Irrecuperável). A Maninha hoje é um conjunto de ossinhos, uns poucos cabelos , alguns órgãos internos que funcionam e dois olhos. Dois imensos olhos profundos e tristes. O resto a gente não sabe, a gente não vê. Talvez haja uma imensa vida interna com um tempo interminável para a reflexão que a Maninha nunca pareceu fazer. Talvez seja viagem minha e não haja mais nada. Talvez a vida já tenha ido embora junto com o sorriso dela e essa parte dela já faça parte de um outro mundo ou tenha se perdido para sempre.
Só sei que a Maninha traz à tona aquela questão da morte e da vida. É um dilema que a gente busca esquecer mas é difícil trabalhando com a AIDS.
Um dia talvez eu aprenda a pensar nisso. Talvez nesse dia eu esteja pronta para morrer.
UM LUGAR AFETIVO PARA A TROCA DE SERINGAS
Dia 9.6.98
Restinga Velha. Terça à noite. Plantão normal: visitamos os Agentes, fizemos trocas e abastecimento. No final fomos visitar um Agente novo. Era sua primeira semana com a caixa coletora. Um dos moradores foi conosco até o local: um loteamento novo completamente irregular no tamanho dos lotes, nas instalações elétricas, etc.
Ao nosso chamado ele veio eufórico para a rua nos receber. É um rapaz novo, extremamente bem educado e cordial. Fez questão de nos apresentar o amigo que estava com ele e com o qual, segundo nos informou, acabava de falar sobre o trabalho que começava a fazer conosco “com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo”.
O amigo demonstrava claramente que acabava de tomar uma dose. Com os olhos estalados não conseguia balbuciar nenhuma palavra mas de alguma forma nos cumprimentou.
O dono da casa, na sua euforia química (depois ficamos sabendo que ele não usa injetável mas sim crack), em cerca de 5 minutos nos contou com detalhes toda a sua vida. Uma sucessão de episódios de pobreza e de insucessos e que contava sorrindo e com um ar iluminado que quem encontrou o Senhor ou acabou de usar uma pedra.
Em tudo foi muito amável conosco, nos fez entrar na sua casa tão pequena ( pouco maior que uma cama de casal) e mostrava com orgulho as fotos das suas filhas e dava nome, idade e grau de parentesco de todas as pessoas que apareciam nas folhas do álbum que ia desfilando em nossas mãos.
Quando entramos na questão das seringas, se tinha trocas para fazer, manteve o mesmo ar cerimonioso e mostrou onde estava a caixa com o mesmo orgulho que falava das fotos.
No seu discurso sem pausa, falou que tinha ido buscar estas seringas na casa de quem usa e lá fazia as trocas mas que achava que não era a melhor maneira: “acho que tinha que ter um lugar, uma sala, uma casa, um lugar afetivo onde os usuários pudessem vir fazer as trocas, aí sim eles viriam...”
Essa troca de palavra (pois certamente ele quis dizer efetivo) não me saiu da cabeça. Chegamos a comentar na volta do plantão. Mas foi na madrugada, pensando na importância desse ato falho, que ele fez mais sentido para mim.
A gente sempre fala que Redução de Danos é mais que troca de seringas e esse rapaz, sem se dar conta, na sua viagem reforçava um ponto muito importante do nosso trabalho: “se houver um lugar afetivo os UDIs farão trocas conosco”.
Muitas coisas ficaram passando na minha cabeça:
* as idéias pré-concebidas sobre usuários de drogas: pessoas sem sentimentos, agressivos, oportunistas, perversos - e tentei lembrar se em alguma outra situação cheguei na casa de um estranho ( ou mesmo de conhecidos) e fui tão bem recebida, com tanta importância, com tanto carinho.
* nos pré-conceitos criados pela falta de experiência, que pregam o risco de entrar em contato com pessoas que fizeram uso de substâncias psicoativas ou da falta de nexo da sua fala durante o efeito das drogas. Muitas pessoas que dizem conhecer nosso trabalho jamais chegariam a um conceito tão claro como esse.
Cada vez fica mais forte em mim a convicção de que nós precisamos criar um lugar concreto, e que possa ser o nosso lugar afetivo. Nesse lugar poderemos trocar bem mais do que seringas.
terça-feira, 2 de junho de 2009
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Rosa,
ResponderExcluireu diria que começaste com DOIS PÉS DIREITOS ao mundo blogueiro!
a ´viagem´ está apenas começando!!!
beijo!